A ferida que permanece intacta aqui.

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Eu tento esquecer, arrumo algo para me distrair e mudar o foco, mas a ferida permanece intacta aqui. Às vezes, uma coisa qualquer é capaz de fazê-la sangrar como se alguém cravasse, com toda a força, as suas unhas dentro dela.

Dói, dói tanto que o coração chega a ficar apertado e pequenino, mas eu tento disfarçar e, mais uma vez, fingir que ela não está ali. Mas ela está... E está pulsando tão forte que eu já não consigo mais me esquecer dela.

Então, como uma criança sozinha e perdida, eu olho para ela sem saber o que fazer.
Sua dor me invade e as lágrimas despertam, mas eu me sinto acuada.
Quanto mais eu penso sobre, menos consigo encontrar uma solução... Nem mesmo entre tantas as "soluções" que já escutei, porque dentro de mim elas não serão capazes de curar a ferida.
Por isso, às vezes, escolho adormecer para sonhar que ela cicatrizou. Que, como em um passe de mágica, desapareceu ou foi curada pelas minhas próprias mãos.

Aí eu acordo e percebo que nada mudou, me perguntando se esta ferida está presente há tanto tempo que já até faz parte de mim.
Dizem que a dor cria seu próprio antídoto. E que ela também tem o poder de nos transformar em pessoas mais fortes.
Mas, por que me sinto tão desorientada? 
Por que sinto que minhas forças estão indo embora? Diamantes precisam ser lapidados, é o que dizem.
Por que precisamos atravessar o fogo?
Por que somos forjados dessa forma?
Dizem que devemos olhar com gratidão para as nossas cicatrizes. E eu tento, olhando essa ferida aberta, acreditar que um dia elas serão benditas.
Que olharei para a minha vida, para essa queda e agradecerei por ter me tornado alguém melhor. Que direi a mim mesma: foi importante ter caído, foi necessário ter me machucado.

Dizem que a vida é essa roda-gigante cheia de altos e baixos. E dizem, ainda, que nem toda dor é eterna e que tudo nessa vida é passageiro.
Então, olhando para o teto – deitada da minha cama – eu só consigo pedir que o sono me abrace e adormeça um pouco o que está latejando.
Porque me disseram, as pessoas sempre dizem, que em nossos sonhos nenhuma dor nos alcança. Que lá somos inatingíveis.

Beatriz Zanzini e Pâmela Marques

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