O despertar das asas.

13:00


"Eu estava aqui o tempo todo, só você não viu."

É, a frase desta música veio a calhar para a história de vocês. Ela estava ali o tempo todo mesmo. Aguentou, aos trancos e barrancos, todas as dificuldades pelas quais você passou, mesmo quando elas também tornavam tudo mais difícil para ela.

Assisti diversas vezes às ordens que você dava para ela. Não havia nenhum sinal de respeito, de admiração... Parecia mais uma relação de empregado e patrão abusivo.
Era quase que impossível enxergar que vocês eram um casal e eu achava isso muito triste.
Até hoje eu me pergunto como ela conseguiu aguentar por tanto tempo.

Foram anos de ofensas, discussões e opressão. Tentei alertá-la diversas vezes de que ela estava como um pássaro ferido que, mesmo sabendo que saindo da gaiola poderia encontrar uma cura para as suas feridas, preferia permanecer ali, sangrando e com medo de que lá fora fosse ainda pior.
Mas será que tinha como ser pior? Temo que não, afinal uma das piores coisas que podemos fazer com nós mesmos é permanecer em relações que aprisionam, sufocam e machucam.
Só vale a pena permitir que alguém nos acompanhe quando a sua companhia vem para somar, para cuidar (mais) da gente, nos ajudar a crescer e ser (mais) feliz.
Do contrário, não consigo ver nenhum sinal de amor.

"Mas ele tem esse jeito torto de amar, sabe?"
Olha moça, eu confesso que não sei não. Talvez esse "jeito torto" mostre exatamente a ausência do amor. Machuca, eu sei... Mas quantas vezes ele já não te machucou?
A gente se fere tanto quando insiste no que não faz mais sentido que a dor de encarar a realidade (por pior que ela seja) acaba sendo menor. Pode acreditar.

E então, quando ela finalmente se cansou dele, eu fiquei observando de longe.
Senti medo de que ela voltasse atrás depois, principalmente porque ele, ao perceber que havia perdido o controle da situação e o domínio sobre ela, decidiu insistir.
Ali eu percebi que realmente não é amor. Nunca foi. Tem gente que ama gente e tem gente que ama o poder que exerce sobre os outros e só.

Também senti medo de que ela fraquejasse porque, mesmo soando absurdo, é comum a gente se acostumar tanto com alguém que a sua falta nos faz sentir - de forma equivocada, vale a pena dizer - que é melhor lidar com os machucados da sua presença do que com a sua ausência.
Mas não, dessa vez ela se cansou mesmo, de verdade.
Deixou ele ir embora, não se comoveu ao ver as malas cheias e o outro lado da cama vazio.

Não foi fácil, afinal nunca é. Mas o tempo se encarregou de mostrar para ela que já havia passado da hora de sair da gaiola.
Quando ela tocou os pés no chão, logo de cara notou a ferida pulsando ali, totalmente aberta.
Foi remediando aos poucos e logo começou a cicatrizar. Sim, a cicatriz não iria embora nunca e ela sabia disso, mas ao invés de lamentar, entendeu que poderia ser uma forma de se lembrar de tudo o que enfrentou e da força que teve e continua tendo para seguir em frente.

E foi assim que ela arriscou o seu primeiro voo.
Caiu em questão de segundos, mas não se machucou.
Criou coragem e arriscou o segundo.
O terceiro.
O quarto.
Não sei quantos mais vieram depois.
Afinal é difícil encontrá-la no chão agora que ela se deu conta do quanto é plenamente capaz de voar...

(Com sua própria companhia e nada mais.)

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