Corações vazios e bolsos cheios.

06:15


Às vezes eu tenho a sensação de que o mundo é hipócrita.
Vemos por aí muito textos e frases motivacionais sobre fazer o que você ama e ser você mesmo... De repente, aparece o episódio preconceituoso da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (Rio Grande do Sul), que promoveu a festa do “Se nada der certo”.
Nesta festa, os alunos se fantasiaram de gari, porteiros, vendedores, caixas de supermercado e outras profissões exercidas por pessoas que (segundo a escola e seus alunos) “não deram certo”.
O que seria dar certo (para eles e, infelizmente, para uma grande maioria)?
Seria cursar uma boa faculdade?
Trabalhar com algo que dê dinheiro?
Ocupar cargos que ofereçam prestígio e status?

Bom, eu acho assustador perceber que o que mais importa, que é a nossa felicidade, não entre como um requisito fundamental quando se trata de exercer uma profissão.
Sim, eu sei que o país está em crise e que, na maioria das vezes, não temos condições de escolher o trabalho que realmente nos agrada (aquele que a gente faz de coração). Mas também sei que muitas pessoas estão em crise, trabalhando com algo que lhes roubam a saúde (física e/ou mental) e fazendo com que elas se sintam exaustas e tristes no final do dia.
Quantas delas não se sacrificam assim por medo do que os outros vão pensar se elas jogarem tudo para o alto e arriscarem uma profissão "que não dá dinheiro"?

Erroneamente, a gente se divide entre viver a vida que desejamos e viver a vida que os outros desejam para nós. Aí nos deparamos com este tipo de ideia (absurdamente discriminatória) de que garis, porteiros e caixas não deram certo na vida.
Não sei da história de cada um para dizer se ele exerce tal profissão porque ama ou porque foi a oportunidade que apareceu, mas sei que eles trabalham para pagarem as próprias contas e ainda atenderem as necessidades destes que estão aí debochando do que eles fazem.
São eles que dignamente limpam o seu lixo.
São eles que abrem a porta para você e, muitas vezes, fazem a segurança do local em que você se encontra. 
São eles que atendem você no supermercado para que você possa fazer as suas compras.

Acho que o que não deu certo mesmo é esta falta de empatia e a mentalidade mesquinha que se preocupa muito mais com corações vazios em troca de bolsos cheios.
Portanto, que isto sirva para nos fazer refletir sobre quem somos e, principalmente, sobre o direito do outro de ser quem é.
Seja gari, empresário, faxineira ou publicitária, todos nós merecemos respeito, todos nós merecemos ter a chance de trabalhar para pagar as contas e, todos nós, de alguma forma, estamos contribuindo com algo ou alguém ao fazer isso.
Quem sabe, tendo essa consciência e nos libertando das exigências tolas dos padrões (que se sustentam em aparências e não em essências), o mundo todo tem uma chance maior de dar certo.


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