AQUARELA DE SONHOS

09:01


A cama bagunçada, o lençol espalhado, o travesseiro torto e o edredom mal dobrado. 
Na cômoda, somente um pacote vazio de bolachas e uma lata da cerveja misturando-se com a poeira. 
A janela, com a cortina pouco aberta, reflete o meu estado de espírito. 
Me fechei para o mundo, me esqueci de tudo, até mesmo de mim. 
Os planos, escritos em uma folha de papel amassada, ficaram na gaveta. Vez ou outra encaro a folha, em silêncio, pra ver se despertam a minha força, alguma coragem ou até mesmo uma sutil iniciativa, mas é em vão. Aí eu enxugo as lágrimas, respiro fundo, assusto-me com as olheiras fundas que vejo no espelho e guardo os papéis de novo, junto com aquele velho batom vermelho que eu tanto gostava e agora já não vejo mais nenhuma graça. 
Então os dias acabam e eu fico assistindo as horas passarem, sem sair do lugar, postergando tudo o que preciso fazer, até mesmo as coisas mais urgentes, aquelas que, há tanto tempo, gritam pela minha atenção. 
O guarda-roupas, tão bagunçado quanto minhas frustrações, me lembra, constantemente, que preciso organizá-lo antes que ele desabe. Como eu desabo, diariamente. É fraqueza, é desespero abafado, é falta de fé, é desânimo, é cansaço... É tudo isso junto e mais um pouco. 
Pode até parecer que estou perdida, que não sei o que quero, mas a verdade é que eu estou assim justamente por saber o que preciso. E, infelizmente, o que preciso talvez seja uma loucura, um sonho infantil que está — aparentemente, muito — longe de mim. Posso enxergar nitidamente, mas a cada passo que tento dar em direção à ele me leva para a beira de um precipício e me lembra que construir castelo em nuvens é coisa de criança, quando tudo ao meu redor me cobra maturidade. Quando a realidade me chama, tudo o que eu quero é voltar a dormir, porque ela me faz enxergar que jamais terei a liberdade de ser quem eu sou de forma plena e em harmonia com as necessidades desta vida. 
Só que a vida adulta não nos permite adormecer até os sonhos se tornarem possíveis. Ela bate à porta. E grita. E soca a madeira. E quebra as janelas, nunca mais duras que ela. 
As dívidas não esperam até que as dúvidas se dissolvam. O pó não evapora enquanto as agonias se concretizam. A estrada não se forma enquanto a fé parece sumir... Cada dia um pouco mais... 
O fato é que ainda não descobri um meio-termo entre a utopia das minhas projeções e as obrigações da maturidade. Não aprendi a viver só hoje, quando o amanhã imaginado me colore os olhos como arco-íris em dia nublado. E enquanto não me permitem ser qualquer coisa além, sigo pintando palavras em folhas amassadas e lotando minha gaveta com planos de "um dia talvez...", até que o próximo balde d'água caia sobre mim. Talvez o preço de sonhar seja esse. 

Texto: Beatriz Zanzini & Giselle F. 
Fotografia: Aliza Razzel



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