Uma reflexão sobre tudo o que anda acontecendo no Brasil.

17:18


(Suposto?) estupro coletivo. 33 homens, 1 mulher. "Foi estupro mesmo? E se ela usava saia curta, se tiver usado drogas, se disse que queria liberar pra geral, se estava na favela? Ela já tem até um filho!" Os rapazes dizem que foi consensual e que ela até apareceu na balada sorrindo na noite seguinte. Tem uma foto (que parece ser dela) segurando uma arma e tem vídeo deles expondo um corpo dopado e sangrando, ao som de risadas ao fundo. A mídia desconfia, o exame não aponta violência e a delegada diz que acredita na garota.
"Não acredite em tudo que vê", diz a vizinha convicta do que aconteceu, mesmo sem estar lá. É culpada? É inocente? É vítima? É armadilha? As feministas, os machistas e até mesmo aqueles que preferem não se definir debatem, muitas vezes com igual violência a tudo que temos visto.
 Enquanto isso, o país também vai se afundando em uma crise econômica e uma guerra política. "Coxinha”. "Petralha". Foi golpe? Não foi golpe? Lava jato? Dilma? Temer? PT? PSDB?
Vamos debater até o fim com o coleguinha para mostrar que a nossa visão é a única correta, não é preciso gastar toda essa energia em maneiras mais efetivas de corrigir o que nos incomoda em nosso país. Não é preciso transformar toda esta indignação em fotos e textos em ações contra todo tipo de corrupção, até mesmo aquelas com as quais nos deparamos todos os dias na fila do pão.
Aliás, a fila do pão diminuiu e o desemprego aumentou. Parece até que ele atingiu o seu recorde.
A Paula, o João, a Ana e o Maurício estão distribuindo os seus currículos, junto com milhares de candidatos por aí. Alguns insistem em atuar nas áreas que escolheram, já que pagaram anos de uma faculdade. Outros já não podem mais se dar ao luxo de escolher, tem que pegar a primeira coisa que aparecer. A Luíza mesmo pensa assim. Ela tem um filho na barriga que não tem como criar porque também perdeu o emprego, e grávida fica ainda mais difícil de conseguir algo. Aliás, a criança é fruto de um estupro, mas, você sabe como é, "não é certo" ela abortar. "Ninguém é estuprada em casa, lavando a louça". A Luíza estava em casa, mas não tinha louça pra lavar porque faltava comida pra sujar. Abriu a porta ao ouvir a campainha, foi abordada pelo Antônio que portava uma arma e, silenciosamente, foi molestada no chão da sua sala. Abafou o grito, engoliu o choro e sentiu vergonha de contar para alguém, porque poderiam dizer que a culpa foi dela... Por atender a porta, por estar sozinha, por ser mulher. Até pensou em contar para a Mariana, mas ela já tem tantos problemas. Apanha do marido machista que não a deixa sair de casa (afinal, o "lugar dela" é limpando os quartos, a sala, a cozinha). "Estranha essa moça, né?" disse o seu Jaci, que mora do outro lado da rua e sempre vê o marido dela saindo para trabalhar, enquanto a "vagabunda" só fica na mordomia dentro de casa. E olha que nem do filho ela cuida direito, porque o menino passa boa parte do tempo na escolinha do bairro, aquela que não tem merenda para oferecer no almoço.
"Mas essa rua é cheia de gente esquisita mesmo, não vê o Fabinho, aquele viadinho que mora na esquina? Todo mundo sabe que ele é florzinha, até chegou com o olho roxo nestes dias. Provavelmente algum macho de verdade quis fazer ele virar homem". Agora ele não vai poder sair do armário, porque nem na rua ele consegue sair em paz.
Ah, e sabe aquela criança que mora ao lado da casa dele e vive chorando? Parece que o padrasto abusa dela e a mãe sabe, mas ninguém tem provas. O que todo mundo tem é medo de se intrometer, de se prejudicar também, então é melhor ficar quieto e deixar pra lá. Uma hora ela para de chorar.

A gente vê fome, frio, intolerância, racismo, homofobia, estupro, assalto, assassinato, tortura, opressão, medo, desemprego e ignorância. Quanto mais eu me informo sobre o que acontece no Brasil, mais eu me sinto confusa e assustada. Confesso que já não sei mais em que ou em quem acreditar, com tantos achismos e pouca transparência. Vejo os conflitos aumentarem cada vez mais entre aqueles que deveriam se unir. Vejo muita gente apontando o dedo um para o outro, quando deveríamos dar as mãos e sair em uma mesma luta, por uma vida mais digna e justa para todos nós. Vejo uma preocupação excessiva com a intimidade alheia e com a sexualidade do outro, mas não vejo preocupação com a fome, a sede, a falta de moradia, a precariedade da saúde pública, a violência ou a desvalorização da educação. Vejo muito apoio exposto ao que está na Internet, mas pouca compaixão a quem precisa nos bastidores. A verdade é que, enquanto só reclamarmos que o mundo está de ponta-cabeça, mas não nos levantarmos para colocá-lo em seu lugar, tudo vai permanecer exatamente do jeito que está.



Você poderá gostar também:

0 comentários

Curta