Pássaro acorrentado.

10:48


As unhas mal cortadas e com resquícios de esmalte vermelho batiam em um ritmo constante contra a taça de cristal. Mesmo com a rasa quantidade de vinho tinto barato, era possível notar que antes a taça estava cheia: haviam marcas de batom e do vinho na ponta.
Os olhos arregalados pareciam não piscar, como se estivessem focados em um único ponto ou em transe.
Os cabelos oleosos e as olheiras profundas denunciavam o esquecimento da vaidade, o esquecimento de si mesma. Talvez isso explicasse o sumiço dos espelhos nos cômodos.
Embriagada, deixou a dor vir à tona, cortando-lhe a carne. O sangue misturava-se com o vermelho das unhas, invadindo os dedos. 
As lágrimas escorriam sem a menor censura, sem nenhuma tentativa de controle ou repressão, acompanhadas de gritos de dor.
Pegou a garrafa, colocou na taça o restante do vinho e seguiu para o banheiro. Abriu a gaveta onde guardava medicamentos e pegou alguns comprimidos. Colocou todos eles na boca e engoliu junto com o vinho.
Se deu conta do que havia feito no mesmo segundo e caiu em prantos. Não sabia se chorava pela tentativa quase que estúpida de suicídio ou pela vida miserável que levava.
Sabia que poderia estar mais perto da morte, mas já sentia-se morta. Acordava, dia após dia, sabendo que tudo seria igual, como um roteiro já previsível. A pouca esperança que sobrava foi embora junto com toda aquela fé de que um dia se alimentou, quando caiu no fundo do poço e encontrou a realidade.
Não havia saída, não haviam opções. Condenar-se a viver o que tanto temia tornou-se insuportável... Até mais insuportável que a dor pulsante no estômago que ela sentia agora.
Então, de repente, no cansaço de transbordar as suas tristezas, fechou os olhos encharcados e adormeceu em um sono pesado.
Algumas horas depois, acordou. Percebeu que estava viva, quase intacta, e que nada ao seu redor havia mudado. Lamentou o fracasso de sua tentativa e culpou-se, acreditando ser mais uma prova de sua covardia.
Pelo choro silencioso, sei que no fundo ela pedia por socorro. Precisava ser salva de si mesma, de todas as suas exigências, de todo o peso que carregava... Não como alguém que quer chamar atenção, porque nem mesmo ela conseguia se encarar, mas como alguém que não tem mais forças para se curar porque se acostumou a se ferir.
(Como um pássaro acorrentado que perdeu tanto, até perder também a vontade de voar...)


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