Cortes e partidas.

19:44


Senti uma dor intensa e, ao olhar para os meus pés, notei que boa parte da unha de um deles estava cortada. Somente um pequeno pedaço dela a segurava em minha carne, que não parava de sangrar. 
Na hora eu não me dei conta, mas possivelmente foi um sinal de que naquela noite eu seria mesmo cortada. Eu sairia partida, sem uma parte minha que eu sei que jamais poderei resgatar. 
Quando você está machucada, você também está exposta. Sua fragilidade vira alvo e você não consegue ter controle algum, porque a dor passa a sugá-lo todo para ela. 
E então, como alguém que não hesita em gritar o que pensa, sente e é, acabo me tornando ainda mais vulnerável, e esta é uma das piores sensações para mim. Se me calo por muito tempo, sei que a explosão será inevitável, justamente por ser alguém que transborda a sua essência sem qualquer tipo de censura. E quando esta explosão decide vir à tona, seja por algo pequeno ou relevante, todas as verdades são declaradas aos berros, em uma tentativa desesperada de expulsar as mágoas que me contaminam. 
Aí, quando finalmente me cansei, quando finalmente me esgotei, me sentindo vazia depois de exteriorizar minhas dores, eu me dei conta de que, mais do que nunca, preciso me resguardar. 
Preciso do silêncio, da solidão e da introspecção agora, mas por pouco tempo. Porque, na verdade, o que eu mais preciso é agir, encarar meus medos, reinventar pedaços meus e buscar outras alternativas, ainda que elas deixem a minha felicidade em segundo plano, momentaneamente (de qualquer forma, eu sei que ela também não está aqui). Vai ver a gente precisa viver o inferno para criar coragem para buscar o (nosso) céu. 
Se a minha dor não for o bastante para me impulsionar a mudar, então ela será o bastante para me libertar, de uma vez por todas, de tudo o que corrói a minha alma. 
Como uma pássaro ferido e acorrentado, não consigo me mexer neste exato momento, mas quando as feridas cicatrizarem, minha natureza vai gritar por uma saída, por um voo para longe... e então eu seguirei em frente com minhas asas cortadas, mas com a certeza de que estes cortes foram imprescindíveis para me despertar e me fazer voar, já que aqui... aqui não é o meu lugar.


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